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Artigo de Léo Lince: “Onda de vandalismo”

o ditado popular que uma imagem vale mais do que mil palavras. Sem negar a importância do afirmado, Millôr Fernandes sugeriu o seguinte reparo genial: “tudo bem, agora experimente dizer isso sem palavras”. O apelo do que nos entra pelos olhos, sem dúvida, mobiliza sentimentos e produz nas pessoas um impacto imediato. Mas quando se trata de formar juízo sobre o sentido daquilo que nos afeta, as palavras tem a última palavra.

São elas que, na arquitetura sumária das abstrações, terminam por conferir sentido ao que nos chega pela vertigem dos sentidos. O que se vê e o que se ouve só serão o que houve depois de falado ou escrito. O fluxo da memória pessoal e o registro coletivo dos acontecimentos passam, inevitavelmente, pelo terrível poder revelador ou enganador das palavras. Todo tipo de sortilégio humano (utopia, distopia, hegemonia, democracia, tirania) se estrutura ou se desmonta a partir de tal argamassa indispensável.

O jornal “O Globo”, na sua edição do dia 31/10/2013, nos fornece um exemplo admirável do contraditório que habita e se revela na soberania das palavras. Estão lá, distribuídas na diagonal da pagina três, duas matérias que configuram um quebra-cabeça de peças que não conjuminam. Uma coisa não casa com a outra, fatos e argumentos exibem contornos que remetem para interpretações diametralmente opostas.

Na extrema direita, no alto da página, está o pequeno editorial, sob o título “Tempestades”, onde fica claríssimo, ainda que de maneira enviesada, o lugar do jornal na conjuntura aberta com as turbulências de junho. Ao elogiar a reunião, considerada tardia, do Ministro da Justiça com Secretários de Segurança do Rio e de São Paulo, o editorial defende a repressão conjunta dos governos ao que é definido com ênfase como sendo uma intolerável onda de vandalismo. E, no fecho, uma ameaça: “se o governo federal mantiver o discurso de evitar “criminalizar as manifestações”, o país colherá tempestades num ano eleitoral e de copa do mundo”.

Elogia, demanda, apoia e cobra a federalização das investigações e a articulação dos aparatos repressivos para o combate vigoroso e imediato ao vandalismo. Mas as palavras usadas desnudam o objetivo velado. O que se pede em bom português, não se sabe se por ato falho ou por escancarada nitidez, é a criminalização das manifestações. São elas, na opinião do editorial, a catástrofe que nos ameaça com tempestades no ano eleitoral. As manifestações devem ser criminalizadas para garantir o perfeito funcionamento da máquina mercante e a alma dos negócios associados com a copa do mundo. É o que está dito no argumento velado do editorial em pauta.

Por outro lado, na extrema esquerda e no rodapé da mesma página, “outras palavras” nos remetem para fatos terríveis nos quais se revela o âmago da tragédia brasileira. Encimada pela fotografia de um trabalhador de 44 anos, mãos calosas que seguram a carteira de identidade do filho morto, há um relato comovente do acontecimento que abalou Jaçanã, na periferia da nossa maior cidade. Era uma criança, trabalhava desde os 14 anos e morreu aos 17. No domingo, saiu para passear com irmão menor e foi assassinado com um tiro no peito. Não havia nenhuma manifestação na localidade, nem ninguém mascarado por perto, nada que pudesse explicar a brutalidade do acontecido, apenas a rotina de riscos das áreas onde se confina a pobreza.

Segundo declarações da mãe, as últimas palavras do menino morto foram dirigidas ao seu agressor: “Senhor, porque o senhor atirou em mim?” Uma frase espantosa e em tudo semelhante ao que disse na sua agonia suprema outro filho de Deus, o crucificado do Gólgota. Palavras ainda mais terríveis foram pronunciadas pela avó materna do menino assassinado. Há vinte anos, também num domingo, outro jovem de 18 anos, filho dela, foi morto como o neto, alvejado pelas balas da polícia militar. A lucidez resignada dos que só ostentam na face a máscara da dor pungente, usa palavras simples para a sentença definitiva: “meu filho, assim como meu neto, não tinha feito nada de errado. Foram mortos porque eram pobres”.

Diante de nós, expostas, estão as palavras do editorial de “O Globo”; da jornalista Márcia Abos, autora do comovente relato que o contradita; de Douglas, o menino assassinado; de seu pai, José; de sua mãe, Rossana e de sua avó, Helena. Refletir sobre o significado profundo de cada uma destas palavras, que revelam dimensões distintas de uma mesma e dolorosa realidade, é o caminho para localizar as origens do que vem sendo alardeado como onda de vandalismo.

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