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A minha, a sua, a nossa história

Luiz Antonio Simas

As reflexões sobre os nossos problemas urbanos devem ser feitas em uma perspectiva que encare o Rio como um organismo vivo

“As cidades, mais do que conjuntos de ruas, casas, prédios, praças e monumentos, são depositárias das memórias, aspirações, anseios, sonhos, desilusões, conquistas, fracassos, alegrias e invenções da vida de inúmeras gerações que passaram por suas esquinas. Uma cidade guarda experiências intangíveis; é feita, para o bem e para o mal, da matéria e da memória acumulada pelas gerações sucessivas que a habitaram.

A cidade do Rio de Janeiro tem, ao longo dos tempos, a chocante tendência de destruir seus lugares de (des) memória. O Morro do Castelo, sítio da criação da cidade, foi arrasado; o Palácio Monroe foi demolido; o Mercado da Praça XV, um marco da arquitetura em ferro, foi extirpado; a Praça Onze, depositária do contato entre as culturas de negros, judeus e ciganos, acabou em nome de progresso; o local em que Machado de Assis viveu, no Cosme Velho, virou um edifício amorfo; botequins centenários viraram bares de grife com arquiteturas modernosas; históricos cinemas de rua tiveram fachadas descaracterizadas para funcionar como igrejas neopentecostais; centenários sobrados e coretos do subúrbio foram destroçados, sem que deles reste ao menos o vestígio. Os exemplos são inúmeros.

Toda a controvérsia envolvendo a descaracterização do Maracanã, transformado em um genérico de estádio europeu, e do seu entorno; a ameaça aos sobrados da Rua da Carioca, vendidos a uma instituição financeira; a absurda proposta — aparentemente afastada — de demolição do histórico prédio da Polícia Militar na Rua Evaristo da Veiga; tudo isso deveria vir acompanhado de uma reflexão mais profunda, que implique no reconhecimento da cidade, pela própria população e pelos homens do poder, como um espaço acumulado de experiências que não podem simplesmente ser descartadas em nome da transformação do Rio de Janeiro em um balneário modernoso de grandes eventos.

Não se ensina, nas escolas do Rio de Janeiro, a história da cidade, dos seus bairros e ruas, como matéria sistemática do aprendizado. Fala-se mais, para um menino carioca de um colégio do centro, do Palácio de Versalhes do que do Palácio Monroe. Uma menina da quinta série do ensino fundamental aprende sobre as ágoras gregas e sequer escuta falar sobre a Praça Onze, ágora carioca e um dos berços da peculiaridade da nossa experiência civilizacional. Querem que um garoto do Morro da Providência aprenda que a Grécia foi o berço da filosofia ocidental (é ótimo que ele aprenda isso), mas esquecem de dizer ao moleque que a Pedra do Sal, pertinho de onde ele mora, moldou os batuques cariocas dos primeiros sambas. Sem o conhecimento, impera o descaso.

As reflexões sobre os nossos problemas urbanos, como de resto os de qualquer cidade, devem ser feitas em uma perspectiva que encare o Rio como um organismo vivo. A nossa aldeia é feita de história, lugares de memória, espaços de conflito, instâncias de urbanidade e relações tensas e intensas, inscritas no tempo, entre os diferentes grupos que nela reinventam constantemente seus modos de vida. Mudanças, transformações e permanências só podem ser solidamente advindas dessa relação profunda, vivenciada, ensinada, compartilhada e pensada.

As cidades, no fim das contas, não se revelam apenas no que acontece nas suas esquinas. Elas se mostram também — e muitas vezes de maneira mais reveladora — em tudo aquilo que já não é.

*Luiz Antonio Simas é professor de História

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