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13 de maio: “Brasil é o país que mais renega sua negritude”

Por Bolívar Torres do Prosa e Verso/O Globo

“A ausência de rostos negros na esfera pública brasileira, seja nas capas de revistas ou em cargos políticos importantes, impressionou o americano Henry Louis Gates Jr., considerado um dos principais especialistas em culturas africanas e afro-americanas. O professor de Harvard visitou Rio, Diamantina, Recife e Salvador em 2010 para a série de documentários “Os negros na América Latina”, transformada em livro homônimo que acaba de ser lançado no Brasil. Durante a rápida passagem, se decepcionou ao ver como o país mais mestiço do mundo — e o primeiro a se afirmar isento de racismo, segundo o autor — sufoca suas raízes africanas.

No livro, Gates percorreu diversas nações da América Latina para investigar os efeitos da diáspora africana, entrevistando artistas, acadêmicos e outras personalidades ligadas à questão negra (entre os brasileiros, está Abdias Nascimento, um de seus heróis de juventude). Uma pergunta permeia toda a obra: o que significa ser negro nessas culturas? Quem é considerado negro, em quais circunstâncias, e por quem?

Presente nos principais debates sobre raça nos Estados Unidos, o autor ficou conhecido dos brasileiros em 2009, por causa de um polêmico episódio: enquanto tentava forçar a porta de sua própria casa, foi abordado bruscamente por um policial que desconfiou de seu gesto. Os dois discutiram — e o professor acabou preso, se dizendo vítima de racismo. A questão foi resolvida com uma cerveja na Casa Branca, em companhia do presidente Obama. Em entrevista ao GLOBO, o autor se mostra atento às contradições do Brasil. Embora encantado com a aparente harmonia, avalia que os afrodescendentes continuam excluídos socialmente. E dispara: quanto mais “negra” a aparência de um indivíduo, pior é sua condição econômica.

Cada país incluído no livro tem uma maneira própria de se relacionar com a herança africana. Qual é a do Brasil?

Embora seja a segunda nação mais negra do mundo, o Brasil despreza suas raízes negras. Quero deixar bem claro: amo o Brasil e não vejo a hora de voltar ao país. Nunca estive num país em que pessoas de raças diferentes ficassem tão confortáveis juntas. As pessoas são iguais, exceto quando se chega à questão socioeconômica. Como me disse Abdias Nascimento durante nosso encontro, o mito da democracia racial foi em parte uma construção ideológica para negar o direito dos negros de reivindicar sua identidade negra ou se organizar politicamente. O Brasil é o país que mais renega sua negritude. Por outro lado, uma importante cultura negra sobreviveu de forma subterrânea. Há mais tradições africanas no Brasil do que em muitos países do Novo Mundo.

Especialmente nos anos 1960, muitos estudiosos americanos viam o Brasil como o país da democracia racial. Este conceito ainda perdura?

Os americanos abraçaram o mito da democracia racial brasileira porque tentavam usá-lo como arma ideológica contra o racismo nos EUA. Qualquer pessoa que colocar o pé no Brasil, porém, perceberá que isso não existe. É só olhar as elites, as classes altas, as universidades, e praticamente todos os rostos públicos do país: só há brancos. Nenhuma pessoa em sã consciência poderia declarar que existe democracia racial. Mas, nos últimos anos, os negros brasileiros passaram a reivindicar seus direitos. Ações afirmativas estão sendo debatidas e os efeitos mascarados pela democracia racial, eliminados.

Ao contrário da visão binária branco-negro americana, o Brasil usa mais de uma centena de categorias para descrever indivíduos com descendência africana. Como o senhor avalia essa abordagem plural?

Há duas maneiras de enxergar estas categorias. A primeira é que elas desconstroem o binarismo branco-negro, o que é positivo. A segunda é que elas também são uma maneira de escapar da categoria “negro”, de negar uma herança africana comum. Há uma constante em todos os países latino-americanos que visitei: as pessoas mais pobres são aquelas com a pele mais escura. Em geral, quanto mais “africana” a aparência de um indivíduo, mais pobre ele será. E isso por causa da discriminação racial dos brancos, mas também dos próprios negros.

Como teria sido sua vida se tivesse crescido no Brasil?

Acho que não estaríamos tendo esta conversa. Eu não seria professor, assim como Obama não seria presidente. Quando terminei o colégio, em 1968, os EUA ofereciam aos negros uma mobilidade social que não existia no Brasil. E isso graças às ações afirmativas. Elas permitiram que pessoas com o meu background racial e social conseguissem se tornar professores universitários, líderes políticos ou escritores.

Os Estados Unidos estão desarmando seus critérios de ação afirmativa. O ciclo de vigência deste tipo de política pública está esgotado?

O país precisa redefinir as ações afirmativas, e incluir classes. Meus filhos foram privilegiados e não acho que precisem desses benefícios. Quem os merece são os pobres negros, mas também os brancos. As ações afirmativas foram implementadas para que pessoas subissem de uma classe para outra. Agora, elas se tornaram uma maneira de perpetuar as classes, já que muitos estudantes beneficiados por elas são filhos de negros de classes altas. Eu quero que sejam contemplados estudantes de classes baixas, negros e brancos. Falta mais diversidade de classe nos Estados Unidos.

No livro, o senhor afirma que as cotas para negros são essenciais, mas admite que não são um remédio perfeito. Neste sentido, quais são os desafios que o Brasil enfrentará ao implementá-las?

Em primeiro lugar, você precisam definir quem é negro (risos). Gostaria de ver o Brasil tirando mais pessoas da pobreza e dos problemas que afetam os descendentes de africanos. Espero que a proporção de negros e pardos entre a classe trabalhadora, média e alta se torne proporcional à sua população. Como isso não acontece nem nos Estados Unidos, certamente levará muito tempo para acontecer no Brasil. Mas só poderá acontecer com ações afirmativas. E eu admiro o Brasil por finalmente confrontar esta questão e colocá-la em debate.

Há hoje nos Estados Unidos mais negros em prisões do que havia escravos no século XIX. É sabido que um trabalhador na prisão ganha muito menos do que um trabalhador livre. Muitos sociólogos veem nisso um complô econômico. O senhor concorda?

Não acredito que haja um complô capitalista para aumentar o número de presos e ganhar um maior suprimento de trabalhadores baratos. Esta taxa de encarceramento, na minha opinião, foi resultado de uma soma de decisões políticas, como as leis antidrogas que atingiram indivíduos afro-americanos e acabaram alimentando o chamado “complexo industrial carcerário”. Não vejo um complô, mas acho repugnante e vergonhoso que os Estados Unidos tenham a maior taxa de encarceramento do mundo.

Mas ainda assim podemos falar em uma relação entre economia e racismo?

O racismo é uma função econômica. Tenho certeza de que a exploração econômica precede o racismo e é responsável por ele, inclusive nos dias de hoje. Não por acaso as sociedades precisaram de trabalho escravo ou barato, como você mesmo sugeriu em relação às prisões, embora não concorde com a ideia de um complô neste caso. A escravidão existiu porque não queriam pagar todos os trabalhadores. E é também por isso que existem as favelas. Veja os imigrantes nos Estados Unidos: eles sustentam a economia e ainda assim são vistos de maneira negativa. A escravidão foi sui generis, nada é igual a ela; mas os mesmos mecanismos de opressão perduram por razões econômicas, e é claro que é mais fácil de codificar estes mecanismos em função da cor da pele. Os negros continuam recebendo os trabalhos menos desejáveis e com menor salário.

O que achou do gesto do jogador Daniel Alves, que comeu uma banana arremessada por torcedores racistas durante um jogo?

Gostei. É engraçado e sutil. Ele merecia um prêmio por isso. Para entendermos o ato desse torcedor, devemos ensinar a história do racismo e de como ele se manifesta em representações com macacos, bananas, chimpanzés… As iconografias racistas têm uma longa história. Foram primeiro usadas para reforçar a imagem dos negros como escravos e depois como cidadãos desclassificados.

Como combater o racismo: campanhas educacionais, prisão ou multa?

Com educação. Não acredito em multas ou prisão por racismo. Martin Luther King dizia que não se pode legislar a moralidade. Não podemos legislar o antirracismo, mas podemos expor as pessoas ao conhecimento. Com conhecimento suficiente, o racismo irá, quem sabe, desaparecer.”

A reportagem no jornal O Globo

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