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Carnaval de rua: “tempo de subversão da cidadania roubada”

Artigo escrito pelo historiador Luiz Antonio Simas…

“A experiência carnavalesca é uma pequena morte. Durante os dias de Momo, a máscara prevalece e todas as inversões sociais são urgentes e necessárias. Esquecimento, eis a essência da folia. O legítimo folião não programa o Carnaval com rigidez cartesiana ou como se a vida devesse funcionar feito um sistema tático do futebol de resultados. Ele sabe apenas que vai para a rua imolar-se nos blocos e cordões e morrer até a quarta-feira de cinzas, quando ressuscitará como burocrata, marido, mulher, amante, namorada, operário, empregada doméstica, pai, mãe, professor ou escriturário.

O espaço para o esquecimento necessário é a rua. E é na rua que este folião – amante da festa e das libações – anda tendo que driblar, feito um Garrincha à sorrelfa, as multidões coreografadas, os materiais de propaganda de empresas que acham que o Carnaval é apenas um evento, as celebridades duvidosas que usam a festa como forma de promoção e os compradores de abadás que serão usados em futuras sessões de musculação. Vez por outra, há que se encarar, ainda, algum agente da ordem disposto a exigir autorização por escrito para que um sujeito sozinho possa cantar uma marchinha e bater panela na esquina. Mas o folião, como a madeira que cupim não rói do pernambucano Capiba, dá nó em pingo d´água e sobrevive para soltar a voz.

É para este folião – comandante de alguma armada de piratas, faraós, colombinas, beduínos, índios e árabes – que este guia dos blocos é feito há quinze anos. Com ele temos uma dimensão da importância da festa como um verdadeiro rito civilizatório carioca; bordada, de preferência, pelos sons das marchinhas, marchas-rancho e sambas que construíram a peculiaridade da cidade e a sofisticação da música da nossa gente. Como se não bastasse, há ainda dicas sobre livros, CDs, livrarias e bares onde o Rio de Janeiro é tratado em sua dimensão cultural mais profunda: como um espaço constante de reinvenção do mundo.

É necessário lembrar que o Carnaval, para os cariocas, sempre teve a dimensão de ser um tempo de subversão da cidadania roubada. Inventamos na rua a cidade negada nos gabinetes poderosos. Entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos, simpatias e suvacos balzaquianos, bate-bolas suburbanos e centenárias bolas pretas, dão pistas para se entender como as tensões sociais – disfarçadas ou exacerbadas em festas – bordam as histórias desse terreiro de São Sebastião / Oxossi e podem ser reviradas em alegria; a prova dos nove do povo daqui.

Não encarem, todavia, estas dicas como um manual de conduta que pretende dizer como cada um deve se comportar no Carnaval. Ele presta, sobretudo, um serviço à população do Rio, com a compreensão política de que a cidade deve ser pertencimento de sua gente. E uma cidade, não custa lembrar, só é boa para um turista se for, antes de tudo e prioritariamente, boa para o seu habitante cotidiano. Os envolvidos na elaboração deste guia sabem perfeitamente disso e militam por esta causa.

O que temos aqui não deixa de ser, também, uma louvação ao folião do “bloco do eu sozinho”: aquele que se comoverá com uma marcha-rancho velha de marre-de-si; cantará, depois de alguns chopes, a Jardineira; e descerá o malho nos sambas-enredo acelerados, evocando um lalalaiá do Silas de Oliveira. Depois de se esbaldar com essas dicas, ele procurará, fora da programação oficial e fora dessas páginas, com a leve desesperança dos pierrôs tristes, algum pequeno bloco de esquina – com fanfarras improvisadas, ciganas desvalidas, colombinas assanhadas, piratas tortos e ébrios faraós – onde possa experimentar a beleza maior da pequena morte de três dias; aquela que torna suportável o intervalo entre um Carnaval e outro.

Evoé!”

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