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Chave por Chave: sem casa nova, ninguém arreda o pé

Chave por chave é a nova palavra de ordem entre moradores ameaçados de remoção. Reportagem da Agência Pública relata a resistência de famílias em Porto Alegre que adotaram este lema. A comunidade onde vivem está no caminho das obras do Corredor Avenida Tronco. No Rio, famílias de favelas como Providência e Vila Autódromo também exigem a troca de chave por chave: a chave da casa onde moram pela chave da casa prometida pela prefeitura. O que mais se vê, nestas comunidades, são histórias de pessoas que sucumbiram à pressão, deixaram suas casas e não tem ideia de quando receberão a chave da nova moradia. Algumas sequer recebem o aluguel social, um benefício que deveria ser temporário a fim de garantir um teto enquanto o governo não entrega, de fato, a chave da nova habitação à família removida.

Chave por Chave: sem casa nova, ninguém arreda o pé
Em Porto Alegre, 1.400 famílias que vivem na rota das obras da Copa exigem contrapartida clara do governo para desocupar suas casas
Por Ciro Barros

“Chave por chave. Este é o lema que guia a resistência das famílias ameaçadas pelas obras da implantação do Corredor Avenida Tronco, em Porto Alegre. O empreendimento prevê a duplicação de 3,4 km da avenida Moab Caldas (chamada de Tronco pela população), a construção de uma ciclovia, um corredor de ônibus e tratamento paisagístico. Consideradas essenciais pelo governo federal e municipal para a realização da Copa em Porto Alegre as obras têm custo financeiro de R$ 156 milhões. O custo social, porém, é ainda maior: 1,4 mil famílias ou 3,9 mil pessoas (dados do levantamento socioeconômico da Prefeitura de Porto Alegre) vivem na região que será atingida pelas obras.

Da ameaça de remoção das famílias brotou a campanha “Chave por Chave”, criada pelos moradores e pelo Comitê Popular da Copa em Porto Alegre, que se baseia em uma ideia simples: as famílias em situação de risco só entregarão suas casas ao receber a chave de outra casa em suas mãos.

Várias comunidades (ou vilas, como se diz na capital gaúcha) estão envolvidas na campanha, em três regiões de Porto Alegre: Cruzeiro-Cristal, Vale e Santa Tereza. Ali ficam vilas Vila Maria, Cruzeiro, Gastão-Mazeron, Divisa, Tronco, e tantas outras que acolhem lares estabelecidos há décadas na região.”

“Você imagina o que é para mim, que sou morador da região Cruzeiro-Cristal há 72 anos, nascido e criado aqui, e que moro há 40 anos na mesma residência estar ameaçado de sair da minha casa e sem saber para onde ir”, afirma o aposentado José de Araújo, de 72 anos, que passou a integrar o Comitê Popular após se ver ameaçado de remoção.

“Antigamente o local [Cruzeiro-Cristal, Vale e Santa Tereza] era área rural e a infraestrutura foi toda conseguida pelos moradores por meio do Orçamento Participativo de Porto Alegre. Hoje, temos lá um posto de saúde modelo, creches na região, escolas, comércio, uma boa oferta de transporte”, afirma a arquiteta Claudia Favaro, integrante do Comitê Popular da Copa da capital gaúcha.

E não é qualquer chave que os moradores aceitam

Depois da luta travada para tornar dignas as vilas onde construíram suas vidas, não é qualquer chave que os moradores se dispõem a aceitar. Se as obras tiverem de ocorrer, os atingidos exigem ser reassentados em locais com a mesma oferta de serviços e de preferência na própria região.

“Aqui é um lugar muito próximo do centro de Porto Alegre, cerca de 15 minutos de distância, com toda a infraestrutura que a gente conquistou”, explica Araújo. “Durante todo o tempo que eu moro aqui, nunca houve contestação da Prefeitura para reaver o terreno. Inclusive eu tentei fazer o usucapião, mas é difícil porque eu tenho que pagar fotografia, não sei o quê. Sou um cara que tem muito pouco, sou aposentado. Não faz sentido eu sair daqui e ir para a Restinga ou Sarandi”, argumenta o antigo morador, referindo-se a dois bairros periféricos de Porto Alegre.

As obras da Avenida Tronco começaram em maio de 2012, mas só o primeiro trecho delas, que não envolve desapropriações. Contudo, as máquinas avançam. E o “Chave por Chave” talvez seja o último obstáculo antes da remoção das famílias do entorno para bairros afastados.” Leia mais

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