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Memorial necessário

Nossa vereadora foi vítima de um crime político, um atentado contra a representação democrática. Muito boa a análise do companheiro Léo Lince sobre o que está acontecendo em nosso estado.

Para Marielle e todas as vítimas de execuções.

Há uma cruz continuamente estampada nos jornais. Agora são os mortos da Rocinha e os chacinados em Maricá. Nas áreas da pobreza, o fim da vida chega mais rápido. As “balas perdidas” são encontradas quase sempre em corpos jovens e negros. Pascal disse que “Jesus estará em agonia até o fim dos tempos”, referindo-se ao inescapável sofrimento humano. Mas não a esse, produzido por decisões políticas e pela degeneração social.

Todas essas vidas ceifadas precocemente importam. Tanto quanto a de Marielle, que exercia mandato exemplar, horizontal, participativo, comprometido com os invisibilizados de cujo território viera e dele jamais se afastara. A elucidação célere desses crimes é pleito comum a todas as pessoas que não aceitam a barbárie. Foi isso que levou parlamentares do PSOL a dialogar com os comandantes da Segurança Pública do saqueado Estado do Rio de Janeiro. Mesmo discordando do decreto que estabeleceu uma intervenção sob o signo do improviso, mais voltado para votos do que para proteger vidas.

Da cruz de Marielle e Anderson, assassinado junto com ela, emanará a luz, como testemunham as imensas manifestações que povoaram as ruas desde o 14 de março. A nossa vereadora foi vítima de um crime político, um atentado contra a representação democrática. E as pautas identitárias que sempre assumiu — de superação do racismo, do patriarcalismo, do machismo, do preconceito — são igualmente políticas. Separar uma de outras, aí sim, é sectarismo.

Os fatos trágicos que se repetem no Rio indicam que os fora da lei e alguns agentes do Estado — que se escudam na lei para agredi-la — se sentem com um “salvo-conduto para matar”. É preciso, desde já, reorientar radicalmente a política de segurança pública. Urge também desmantelar a parceria público-privada do crime, tão mais organizado quanto infiltrado no aparato de Estado.

O PSOL jamais disse que “nada pode ser feito enquanto não chegarmos ao poder”, como afirmou aqui Demétrio Magnoli. Fosse assim, não estaríamos nas comissões externas de acompanhamento da intervenção e da investigação do assassinato de Marielle e Anderson, instituídas pela Câmara dos Deputados. Fosse assim, não cobraríamos desde já o fim do domínio despótico do tráfico e das milícias em áreas que sofrem com a omissão do poder público. Fosse assim, não denunciaríamos candidatos e partidos que fazem acordos com esses podres poderes para ter os currais da captação dos votos.

Demétrio reconhece que, “desgraçadamente” (!?), somos “parte indispensável para a produção de um consenso democrático no Rio capaz de isolar a parcela da elite política associada ao crime”. Nessa tarefa estamos empenhados. Ela não será “estátua em mármore com slogans revolucionários ou eleitorais”, mas construção coletiva, substantiva, da cidadania que repudia os que fazem da política uma atividade criminosa.

Léo Lince é sociólogo e membro do Diretório Nacional do PSOL

Artigo publicado no jornal O GLOBO no dia 30.3.2018

Se você preferir, pode ler o artigo aqui

 

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