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O lirismo do carnaval

Tiago Prata
Artigo publicado no jornal O Globo, 29/11

“A declaração da coordenadora do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, Vanessa Damasco, publicada na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos no GLOBO do último dia 15, fez despertar uma discussão sobre o carnaval. Vanessa diz que este ano o resultado do festival ficou mais “divertido”, com menos “música lenta e marcha-rancho entre as finalistas”.

Esse conceito de que músicas divertidas são “melhores” que as lentas, além de ignorar completamente o sentido do carnaval, é perigoso e pode acabar transformando nossa festa momesca numa simples animação, sem lirismo, saudosismo e poesia.

A lamentação e a tristeza são características marcantes de canções, geralmente em tom menor, e de pierrôs e colombinas.

Estes personagens são símbolos fundamentais e presença obrigatória tanto nas várias fantasias que envolvem a festa, como nas lindas melodias e nos ritmos de marchinhas mais cadenciadas, marchas-rancho e outros gêneros irmãos, como o frevo-canção.

O concurso de marchinhas da Fundição já é uma tradição, além de ser, possivelmente, o maior festival de músicas inéditas do país, e tem nos revelado autores inspirados e composições bem interessantes.Podemos, inclusive, lembrar algumas fora do estilo “mais divertido”: em 2008, a linda “Velho palhaço”, do cearense Paulo Gomes, ficou em 3° lugar; na última edição, a “Marcha das flores”, de Gilberto Xangô, apesar de não figurar entre os premiados três primeiros lugares, foi destaque pela beleza que esse tipo de música pode nos proporcionar, inclusive no carnaval.

Em todas as outras edições, ao menos uma música deste estilo foi selecionada entre as dez, mas sem nunca obter grande sucesso.

Soou infeliz a fala de Vanessa publicada pelo colunista. O mais grave, porém, é que essa visão tem tido cada vez mais adeptos na nossa festa pagã.

Talvez seja preciso, para quem veja o maior evento popular do Brasil como algo apenas “divertido”, um roteiro para o próximo fevereiro: “Pastorinhas”, “Até Quarta Feira”, “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, “Noite dos mascarados”, “Bandeira branca” e várias outras canções tão carnavalescas quanto a “Cabeleira do Zezé”.

Convido também para conhecer o Rancho Carnavalesco Flor do Sereno, do bar Bip Bip do Alfredinho, em Copacabana. Há doze anos, tem como objetivo mostrar esse estilo de brincar carnaval. Infelizmente, apesar do empenho, Alfredo sofre com dificuldades de apoio e patrocínio para colocar seu rancho na rua.

O carnaval da Cidade Maravilhosa ganharia muito se empresas e/ou governos dessem ao Flor do Sereno o valor que ele merece. Nele, a democracia reina, e as marchinhas de picardia têm a mesma importância das líricas. Sem elas, ficaremos apenas pulando que nem pipoca, igual ao carnaval dos abadás.”

TIAGO PRATA é músico e compositor carnavalesco

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2 respostas a O lirismo do carnaval

  1. Pingback: Hora de festejar! | Eliomar Coelho - PSOL - O vereador do Rio

  2. Murilo Andrade disse:

    É importante ter consciência de que vivemos num planeta onde impera o multiculturalismo!!! Esse que, num país tropical revela toda sua exuberância, capaz de colocar em cheque as mais radicais convicções materialistas. Evidente que na arte, qualquer que seja a forma de expressão, querer podar essa diversidade é praticar uma mutilação infame. Especificamente com relação à intervenção da Sra Vanessa Damasco, somente reconhecer a qualidade carnavalesca nas “músicas animadas” é desconhecer a origem profana dos desfiles e das apresentações públicas que se passam sob o reinado de Momo. Parabenizo o autor da crítica, muito bem posta por sinal.

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