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Opine: revitalização de Santa Teresa

Imagem de Amostra do You Tube
“Sair do Centro da cidade e ir para Santa Teresa é mais ou menos o mesmo que sair de Ipanema e ir para Petrópolis, só que, no primeiro caso, em 10 minutos de carro, chega-se à serra. Era assim que eu me sentia quando pegava o bonde na Carioca…Os arcos da Lapa eram a passagem da cidade para a serra. (…) As pessoas que hoje em dia estão, infelizmente, acostumadas com a “zona” que está o Rio de Janeiro, não tem ideia do que era isso: um sossego a 10 minutos do Centro ou da Zona Sul ou Zona Norte; acham que Santa Teresa tem que ser igual a todo o resto, ou seja, uma “zona” também. O bairro de Santa Teresa – como qualquer outro lugar – tem sua capacidade de suporte, que está sendo extrapolada muito além da conta porque a administração da cidade não entende cada bairro com suas características e diferenças. Ipanema, Santa Teresa, Bangu, Cosme Velho, Paquetá, Engenho de Dentro, Tijuca, cada um tem cara própria. Infelizmente a população da cidade já se conformou com a “zona”. A nossa capacidade de suporte já foi pro brejo há muito tempo.”

Este é o depoimento de Teresa Brancatto, antiga moradora de Santa Teresa. Se é evidente a revitalização no único bairro da cidade que resguardou os bondes, há uma preocupação de boa parte dos moradores quanto a um crescimento desordenado. Eventos como o Santa Teresa de Portas Abertas e a Flist multiplicam os visitantes a cada edição. Cresceu a oferta de bares e pousadas informais (os cama & café), o que aumentou consideravelmente o movimento em um lugar que já foi pacato. A abertura do Hotel Santa Teresa suscitou uma grita contra o movimento de carros e o barulho excessivo do bar (veja vídeo). Uma obra isolou os potentes, e barulhentos, aparelhos de ar condicionado do empreendimento cinco estrelas mas, segundo vizinhos, não surtiu o efeito esperado.

Paradoxalmente, a única padaria fechou as portas e o único armarinho virou…bar. A iluminação é precária e as ruas continuam cheias de buracos. Já havia relatado esta questão da revitalização no blog, no ano passado. Ponderei, inclusive, que o decreto 26.748/06, da prefeitura, regulamentou, de forma inadequada, a reconversão de edificações tombadas ou preservadas, abrindo a possibilidade de transformação do uso. A matéria deveria ser regulada por lei apreciada na Câmara Municipal. Outro decreto criou o pólo gastronômico, cultural e turístico de Santa Teresa. Segundo denúncias de moradores, este decreto vem dando respaldo à liberação de atividades comerciais que não estão previstas nos documentos legais de ordenamento de uso do solo para a região, com a autorização dos órgãos de fiscalização que estão sendo, no mínimo, complacentes.

Opine. O que você acha do processo de revitalização em Santa Teresa?

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Uma resposta a Opine: revitalização de Santa Teresa

  1. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    O conceito de revitalização hoje é um termo vago e genérico, da forma como está, trabalha-se com a idéia que Santa Teresa não tem vida e que qualquer ação pode signficar “vitalizá-la”. É precisa construir um debate democrático em que todas as partes sejam ouvidas, pois cada um tem um ponto de vista sobre o que é melhorar. Para exemplo “a muvuca sem hora para começo e fim, sem limite de ruídos, sem preocupação com a ocupação das calçadas” é ótimo e desejável para um comerciante de cerveja e comidas, enquanto para um morador é tornar a vida um inferno.
    Se o bairro é residencial, há que privilegiar critérios que apontem melhorias da qualidade de vida. (transporte público, iluminação, segurança, ruídos, saúde, educação etc)
    Se o bairro é comercial os critérios tendem a serem outros e os investidores também serão outros.
    Atualmente revitalizar é qualquer coisa e qualquer botequim barulhento se arvora “empreendedor” e deseja ganhar incentivos públicos pelo bem que promove.
    Neste momento há gestões para criação de “polos de gatronomia” e “turismo” que são caixas pretas montadas pelos critérios de lucro dos “investidores” que não levam em conta os pontos de vistas dos moradores que são maioria.

    • eliomar coelho disse:

      Caro Hylton,

      Concordo quando você diz que o ponto de vista do morador deve ser considerado. E observo que o bairro não ganhou melhorias a partir do aumento da ocupação com bares, restaurantes, hotéis e cama & cafés. Importante saber a opinião de quem vive o cotidiano do bairro.
      Abs,
      Eliomar

  2. Lula Dias disse:

    Adeus minha Santa Teresa querida!
    Que saudade imensa carregarei, tendo como enfoque maior o bairro no final dos anos 60 até os anos 70, quando era maravilhosamente residencial. Estou saindo deste bairro, muito contra a vontade e carregando enorme tristeza e até um pouco de sentimento de culpa, por não suportar mais a invasão empresarial predadora que vem ocorrendo. A padaria fechou, o armarinho virou bar alemão (argh!), qualquer portinha de garagem está se transformando em buteco improvisado, hotéis horríveis com gente idem, carros e mais carros largados em qualquer lugar, sobre calçada, no portão das casas, falatória até a madrugada, palavrões, gritos, músicas de péssima categoria, pouquíssmos bondes precários e… Não, não dá para aguentar. Essa mentira deslavada de pólo turístico e gastronômico é, na verdade, incentivo aos mijões e mal-educados consumidores descontrolados de álcool pelas ladeiras do bairro. Que vantagem nós, moradores de décadas teremos com isso? Claro que nenhuma, pois quem ganha mesmo são esses oidáveis empresários gananciosos e predadores dos setores comerciais, de bares e restaurantes e hotéis que enchem suas burras com preços altíssimos, sonegação de impostos, dentre outros malandranges bem característica dessa gente. O direito do cidadão honesto e pagador de impostos de viver dignamente e em paz no seu bairro estritamente residencial vai para o ralo às vistas grossas do Poder Público covarde e interesseiro.
    Adeus, Santa Teresa, doravante nos reveremos poucas vezes nas tardes dos dias de semana enquanto ouver tranquilidade para se espairecer por suas charmosas e poéticas ladeiras. O mehor bairro do Rio para se residir e conviver ficará guardado para sempre com a bela lembrança que guardarei antes da invasão aliegínena e predatória.
    Até breve.

    • eliomar coelho disse:

      Caro Lula,

      Obrigado pela participação no Opine. Muito importante a opinião de um morador que vive o cotidiano do bairro.

      Abs,
      Eliomar

    • eliomar coelho disse:

      Caro Lula,

      Obrigado pela participação no Opine. Muito importante a opinião de um morador que vive o cotidiano do bairro.

      Abs,
      Eliomar

  3. Maria do Carmo disse:

    Sou nascida e criada em Santa Tereza, e na qualidade de moradora antiga – bem antiga … afinal são sessenta e muitos anos – fiquei extremamente surpreendida com as declarações da nova presidente da AMAST, que certamente não conhece Santa Tereza há tanto tempo.
    Como assim, Santa Tereza não suporta mais comércio no Bairro? Como assim, “setembro negro”?
    Que eu me lembre, só nas imediações do Largo do Guimarães contávamos com duas padarias, dois açougues, uma peixaria, uma tinturaria, duas ou três farmácias, outros tantos armarinhos, uma loja de ferragens, pelo menos três ‘vendas’ e duas quitandas, mais uma casa de material de construção. Sem falar em três colégios particulares além das escolas públicas! O que temos hoje?
    A partir de 1965, por ocasião das chuvas que destruíram Santa Tereza, o êxodo começou. Os imóveis se desvalorizaram, os casarões, foram sendo abandonados e, alguns, ocupados por comunidades hippies; muitas famílias se mudaram para outros bairros. O comércio foi fechando uma a uma suas portas. O bairro ficou esquecido e por pouco não virou, todo ele, um grande ‘parque de ruínas’.
    Nos últimos anos tive a alegria de ver aos poucos Santa Tereza renascer! As antigas lojas estão hoje ocupadas por bares , restaurantes, e algum comércio voltado para o artesanato. Os artistas plásticos e os turistas estrangeiros descobriram o charme do lugar. Vieram os ateliers e as pousadas. FELIZMENTE !! Senão, os prédios continuariam abandonados como ainda estão tantos casarões que conheci lindos, cheios de vida. Felizmente criou-se O Arte de Portas Abertas que insiste em acontecer.
    Compreendo e apoio a AMAST quando luta pela preservação dos bondes – é um patrimônio nosso. Apoio quando pede mais segurança. Mas não posso concordar com quem é contra a revitalização do bairro e seus empreendedores. Santa Tereza não pode virar um museu sem vida! Declará-la como Área de Preservação não basta para impedir a deterioração. É um bairro vivo e esta vida pode e deve reforçar o cuidado com sua preservação e atrair a atenção do poder público.
    Santa Tereza tem características únicas: sempre foi um bairro democrático, acolhedor, aberto. Aqui sempre conviveram em paz grandes empresários, pequenos comerciantes e moradores das comunidades. Sempre acolheu gente de todas as tribos, de todas as nacionalidades e de todas as classes. Que continue assim, sem paranóias, sem xenofobias e sem intolerância!

    • eliomar coelho disse:

      Cara Maria do Carmo,

      Muito relevante que os moradores de Santa Teresa manifestem sua opinião. Observo que há divergências de opinião. Um processo de revitalização sempre incorrerá em mudanças e, a meu ver, deve trazer evolução e melhorias que serão compartilhadas, especialmente, pelos moradores. Para isso, é muito importante haver o diálogo sem intrasigência.

      Obrigado por sua participação no blog.

      Abs,
      Eliomar

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