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Primeiro de Maio: o mais nosso dos dias

“Todos têm um dia especial. É aquele dia que ficamos até mais tarde, colocamos nossa melhor roupa, pagamos uma rodada de cerveja para os amigos. Aquele dia pode ser nosso aniversário ou a comemoração de um título do nosso time do coração, em que deixamos de lado todo o resto para curtir. E para além de curtir, refletimos sobre a data, seu significado, sua memória.

Os trabalhadores do mundo inteiro também têm um dia que é seu. O feriado do dia 1º de maio é dedicado ao “Dia internacional dos trabalhadores”, uma data celebrada em todos os continentes, por trabalhadores de diferentes pátrias, credos e línguas. E no nosso país sua importância é grande; ainda que alguns patrões aproveitem a data para realizar piqueniques e atividades dentro de suas empresas, mostrando o quanto são “generosos”, o verdadeiro caráter do dia 1º de Maio é de luta pelos direitos dos trabalhadores. E quando falamos trabalhadores, envolvemos a esmagadora maioria da população brasileira que, mulheres e homens no campo, na cidade, na periferia ou nos centros, dão duro todos os dias, para ganhar o seu “pão”. Falamos daqueles que com seu suor fazem a riqueza do nosso país, para sustentar suas famílias. Nos referimos a assalariados formais e informais: operários da construção civil, bancárias, educadores, autônomos, enfermeiras, vendedores, moto-boys, trabalhadores e trabalhadoras dos diferentes ramos. Enquanto os empresários teimam em nos chamar apenas como empregados ou colaboradores, o melhor termo, que nos unifica, que nos faz forte é pensar em “classe trabalhadora”.

Pois bem, somos parte da mesma classe, ainda que uns torçam pelo Flamengo, outros para o Corinthians, o Vasco, o Grêmio, Inter; uns sejam evangélicos, outros espíritas, outros umbandistas, católicos e outros não tenham religião; temos várias raças, vindos de vários lugares do país, com sotaques e jeitos diferentes; mas, somos uma classe. Nossa unidade é nossa arma. O 1º de Maio é o nosso dia!

Os mártires de Chicago
A escolha da data não é casual. Foi no dia 1º de Maio de 1886, há 125 anos, que os operários da cidade de Chicago- importante centro industrial dos Estados Unidos- se levantaram contra as péssimas condições de trabalho, exigindo a redução da jornada de trabalho. Naquela época a jornada de trabalho variava entre 13 e 16 horas.

Neste período a cidade estava imersa em grandes lutas, barricadas e greves. No dia três de maio daquele ano, em enfrentamento com a polícia 6 trabalhadores foram mortos, o que resultou num protesto furioso no dia seguinte. Na confusão morreram policiais, bombas foram lançadas, sendo decretado Estado de Sítio. As lideranças do movimento foram perseguidas, presas e condenadas à morte. Eram cinco lutadores que foram mortos. Seus nomes eram: Spies,, Engel, Fischer, Lingg e Parsons. Como escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano são os mártires que renascem a cada 1º de Maio no mundo.

A luta em nosso país
No Brasil também a história da nossa luta é bonita e cheia de conquistas. E duras batalhas. Ao contrário do que fala a história tradicional, os direitos dos trabalhadores não foram presentes dados por governos e empresários. Durante muitos anos se cultuou a imagem de Getúlio Vargas como “pai dos pobres”, por ter sido o governo que promulgou importantes leis trabalhistas. O ex-presidente Lula tenta, da mesma forma, tomar esse título para si. Os verdadeiros responsáveis por esses avanços são os trabalhadores em luta, que a ferro e fogo, obtiveram conquistas como o 13º salário, férias, insalubridade, licença maternidade, entre outros.

Tivemos grandes momentos da luta sindical e operária. No começo do século, influenciada pelos imigrantes nossa jovem classe trabalhadora protagonizou grandes greves como a de 1917. Foram os trabalhadores, do campo e da cidade que resistiram a ditadura militar, como o grande ato do 1º de Maio de 1968, em Osasco (uma das mais desafiadoras ações que o regime dos generais conheceu). Os trabalhadores que começaram o movimento pelas “diretas já”, cruzando os braços nas greves do ABC, que se espalharam pelo país, no final da década de setenta.

Temos também os nossos mártires. A direita sempre atacaram e cassaram os direitos dos trabalhadores. Temos vários mortos, como os operários mortos pelo Exército em Volta Redonda, na ocupação da CSN, no ano de 1988.

Esta semana o Jornal o Globo publicou uma série de reportagens sobre a tentativa de atentado que os militares fizeram no Riocentro, no ato-show do 1º de Maio de 1981.

Fica claro o enorme ódio de classe que as elites têm quando nós, trabalhadores, nos organizamos e celebramos nossos momentos.

Defender bandeiras dentro e fora das empresas

Mais atual do que nunca, temos que lutar em vários sentidos: em primeiro lugar, por condições dignas de trabalho, melhores salários conta a super-exploração. Seja nas fábricas, nas empresas, nas repartições públicas, nos hospitais, comércios, minas, enfim, nos locais de trabalho, as demandas são sempre enormes. Hoje em dia, cada vez mais os patrões querem fazer retroceder nossos direitos. Dois bons exemplos vem da chamada “indústria de ponta”. As obras do PAC, anunciadas como o cartão de visitas da “modernização” do Brasil, controladas por empreiteiras poderosas, tem apresentado, trabalho quase escravo. Um retrocesso a parâmetros que lembram o inicio do século. O outro exemplo são as empresas que atuam no ramo das novas tecnologias: as empresas de telemarketing e as de montagem de peças de computadores são campeãs em não cumprir os acordos coletivos e evitar a presença sindical dentro das empresas. Estão aprendendo com a ditadura chinesa!

Devemos lutar por direitos fora dos locais de trabalho também. Todos os dias milhões de trabalhadores são humilhados com péssimos serviços de transporte, educação e saúde. Os trens, metros e ônibus em que a maioria do povo se desloca para trabalhar são um espelho do país. Altas tarifas, lucros para os empresários e descaso com a maioria da população. O atendimento nos hospitais públicos, a dificuldade de acesso ao SUS são outra face deste mesmo cenário.

Sinal de que temos que lutar, nas ruas, para fazer valer nossos direitos.

Os pelegos seguem jogando a favor dos patrões e do governo

Infelizmente, já não bastassem as dificuldades da luta contra os patrões e o governo, temos ainda que encarar “inimigos na trincheira”. Apesar de vestirem a camiseta do trabalhador, grande parte dos sindicatos e das centrais sindicais jogam no time dos patrões. A Força Sindical e a CUT recebem dinheiro do imposto sindical, do governo e dos empresários para “dar uma força” quando estes estão em apuros. Foi o caso da mobilização dos trabalhadores de Jirau, quando a FS e a CUT entraram em campo para avalizar as demissões e normalizar a situação, “acalmando” os canteiros de obras. A comemoração do 1º de Maio destas centrais será feita com milhões de reais oriundos dos cofres públicos, com grandes festas, representantes do governo dando discurso e nenhuma crítica ou reivindicação..

É importante desmascarar os sindicalistas vendidos, que não cumprem seu papel e desorganizam a classe trabalhadora.

A luta necessária

O exemplo do levante dos trabalhadores do PAC em todo o país nos inspira. A esquerda social, sindical e partidária deve assumir estas bandeiras. A luta contra a nova reforma da previdência começa a mobilizar os servidores públicos. Várias greves e paralisações de diferentes categorias apontam o caminho. Os trabalhadores atingidos pelas enchentes na região serrana do Rio de Janeiro, bem como os de Niterói, estão protagonizando atos de milhares de pessoas contra a irresponsabilidade dos governos e por moradia digna; existem lutas parciais em vários cantos do Brasil.

Neste 1º de Maio, além da reflexão, é preciso partir para a luta. Unificar os setores que já estão saindo para as ruas. Nosso lema segue fiel ao compromisso com nossos mártires e lutadores: podemos VENCER, devemos LUTAR.”

Israel Dutra é professor da rede pública e privada, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Movimento Esquerda Socialista (MES)

Josemar Carvalho é mestrando em Gestão Universitária, professor universitário e da rede publica e privada, membro do Diretório Nacional do PSOL, presidente do Dir. Mun. PSOL no município de São Gonçalo – RJ e do Movimento Esquerda Socialista (MES)

Artigo publicado na página da Fundação Lauro Campos

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