Afundação Guggenheim

A cidade do Rio de Janeiro viveu no ano passado um processo que evidencia os efeitos nefastos que a globalização pode causar na área cultural. A fórmula é a seguinte: pegue uma instituição falida, ávida por dinheiro, que goza de prestígio no circuito internacional de artes - a Fundação Guggenheim - e junte um prefeito arrogante e autoritário - César Maia - que tem como característica pessoal governar lançando mão de ações espetaculosas de marketing e pronto. Está criado o monstrengo. No caso, o Museu Guggenheim, que seria construído no píer Mauá, zona portuária da cidade, ao custo de 1 bilhão de reais para a população do Rio de Janeiro.

Por enquanto, a construção está suspensa, por conta de liminar atendendo ação popular que demos entrada na justiça, após consulta a vários artistas, críticos de arte, museólogos, cidadãos, todos contrários ao museu. Cabe chamar a atenção para o aspecto cultural da questão. Pelo contrato, a programação e o funcionamento do museu ficariam a cargo da Fundação Guggenheim. Mesmo contando com toda a boa vontade do pessoal da “metrópole” - vá lá, vamos admitir a hipótese de que os caras possam ser legais - vale a pergunta: são eles que têm que arbitrar o que deve ou não ser visto por nós? O que realmente seria erguido às margens da Baía de Guanabara? Na verdade, a Prefeitura pagaria esta quantia astronômica para ter na cidade um museu-franquia, uma marca, assim como se paga para adquirir uma loja de hambúrgueres. É o conceito de cultura fastfood: já vem embalada, é só requentar. Cá entre nós, isto tem nome: colonialismo cultural.

Pode soar anacrônico, mas é o que é. Aliás, a embalagem é parte fundamental do pacote. É vendida como a última novidade da arquitetura pós-moderna. Há quem goste e defenda. Resta saber se é disso que a população precisa. Até porque, do ponto de vista arquitetônico, a chamada região do Grande Rio está muito bem servida de belos museus. Citemos dois: o MAM, projeto de Afonso Eduardo Reidy, e o MAC, em Niterói, desenho de Oscar Niemeyer.

O Grande Rio tem a maior concentração de museus da América Latina, alguns de nível internacional. Infelizmente, a situação de muitos deles é precária. O Museu Nacional, a cada chuva mais forte, fica alagado. A pobre múmia egípcia que o habita - única em nuestra América - teve que ser recolhida para não apodrecer. Reformar seu telhado, com certeza, custaria bem menos do que construir o Guggenheim-Rio.

Já dissemos isto antes, e voltamos a repetir. Já que o prefeito revelou-se um amante das artes e mostrou-se disposto a gastar tal soma de recursos públicos em um empreendimento cultural mais do que duvidoso, por que não destinar o dinheiro em favor da rede de museus e centros culturais de nossa cidade, além de aumentar o investimento em pesquisa e produção artística?

Mas isto não interessa ao nosso edil. Para ele é melhor se submeter ao capachismo cultural do que vem de fora.

Para saber mais detalhes sobre o assunto, leia artigo de Eliomar