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Por fora, bela viola...
Eliomar Coelho Publicado no jornal O Globo
em 24/06/2003
Quem vai pagar a conta da construção do Museu Guggenheim?
Acertou quem pensou no contribuinte do Rio. Pelos cálculos,
o projeto, cujo contrato foi assinado em 30 de abril pelo prefeito
Cesar Maia e a Fundação Solomon Guggenheim, não
sairá por menos de US$ 300 milhões, a serem pagos
integralmente pela prefeitura.
Como se não bastassem os altos custos, o contrato encontra-se
repleto de irregularidades. Uma delas é que será regido
pelas leis de Nova York e com arbitragem em Londres. Ou seja, qualquer
pendenga judicial terá que ser resolvida na Inglaterra. A
duração do negócio é de 25 anos, podendo
ser renovado por mais 25 anos e com chance de nova renovação
por igual período de tempo. Traduzindo: é negócio
para até 75 anos.
É mais que sabido que as finanças da Fundação
Solomon Guggenheim não andam nada bem. O grupo americano,
aliás, já se viu obrigado a fechar algumas de suas
estratégicas filiais por operarem permanentemente no vermelho.
E, seguindo a velha tradição de exploração
dos países do Terceiro Mundo pelos do Primeiro Mundo, a lógica
da Fundação Guggenheim parece ser a tentativa de captação
de recursos aqui - no lado debaixo do Equador - que garantam a sua
própria sobrevivência.
Os que se debruçam apenas um pouquinho sobre os pontos do
contrato percebem como ele é lesivo. Veja o que diz a cláusula
12.2h do contrato: “As partes concordam que a arbitragem será
mantida em sigilo, e que a existência da arbitragem ou qualquer
um de seus elementos (inclusive quaisquer petições,
memoriais ou outros documentos submetidos ou trocados, qualquer
testemunho ou outras declarações orais e quaisquer
laudos) não serão revelados a qualquer pessoa além
dos árbitros, as partes, seus advogados e qualquer pessoa
participando dos procedimentos”. Esta cláusula fere
mortalmente o artigo 37 da Constituição brasileira,
que exige publicidade em qualquer ato da administração
pública.
O contrato, aliás, é uma obra de arte, chegada particularmente
ao ilusionismo. Veja o que diz a cláusula 2.3 no seu item
b: “O município reconhece que a estimativa preliminar
do custo de construção do museu é de US$ 133.600.000...”
Ora, como o prefeito Cesar Maia pôde assinar um contrato sem
os custos fechados? Jornais estrangeiros já estão
falando que a Fundação Guggen-heim trabalha com a
quantia de US$ 250 milhões. Note-se que essa verba é
somente para a obra civil.
Para se chegar aos US$ 300 milhões deve-se somar os tais
US$ 133,6 milhões com US$ 2,1 milhões do estudo de
viabilidade (já pago à Fundação Guggenheim),
US$ 28,6 milhões pela utilização da marca ,
US$ 9 milhões pela taxa de associação, US$
4 milhões que os técnicos da Fundação
irão receber apenas para acompanhar as obras e US$ 120 milhões
referentes ao pagamento de déficits operacionais, conforme
ficou acordado no contrato assinado pelo prefeito Cesar Maia. Observe
que não estão incluídas aí as verbas
para aquisição de obras de arte. O acervo terá
que ser pago pela prefeitura. Está no contrato
O projeto para a construção é mirabolante.
Seria construído abaixo do nível do mar, no píer
do cais do porto, Zona Portuária. Não existe no mundo
algo semelhante. Por ser alvo permanente de umidade, as obras ali
expostas precisariam cercar-se de cuidados especiais para não
serem destruídas. A manutenção do acervo, que,
segundo o contrato, pode ser emprestado para quem a Fundação
quiser, geraria despesas adicionais, além das já previstas.
Enquanto isso, nossos grandes museus, como o MAM, o da Quinta, o
Museu da República e o de Belas Artes, passam por dificuldades.
Mesmo sendo eles da esfera federal, Cesar Maia poderia nobremente
incentivá-los, uma vez que estão localizados aqui.
Isso atrairia mais visitantes. Mas não, prefere jogar dinheiro
público em projetos da iniciativa privada.
O prefeito Cesar Maia e a Fundação Guggenheim fizeram
sigilo absoluto sobre a transação. Não enviaram
o projeto nem mesmo para apreciação da Câmara
Municipal, ato inaceitável quando se trata de gestão
de finanças públicas. A cidade somente tomou conhecimento
das negociações realizadas entre o município
do Rio de Janeiro e a Fundação Guggenheim quando da
publicação do relatório conclusivo do estudo
de viabilidade e, posteriormente, com a assinatura do contrato draconiano.
Como explicar tal conduta? Por essa razão, propus ação
popular com pedido de liminar na Justiça, a qual foi concedida
pelo juiz João Marcos Castello Branco Fantinatto, da 8 Vara
de Fazenda, e mantida pelo desembargador Ademir Pimentel, da 13
Câmara Cível, apesar de recurso interposto pela prefeitura.
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