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Sobre megaeventos: modelo retrógrado

Artigo sobre megaeventos publicado na edição de terça-feira, dia 8/03, no jornal O Globo, escrito em parceria com o economista Luiz Mário Behnken, da Rede de Mega Eventos Esportivos (Reme Brasil).

Modelo retrógrado

Eliomar Coelho e Luiz Mário

O Rio de Janeiro vive hoje em êxtase diante da perspectiva de sediar megaeventos esportivos. Ainda este ano a cidade vai receber os Jogos Mundiais Militares. Em 2013 será a vez da Copa das Confederações, como prévia da Copa do Mundo, programada para o ano seguinte no Maracanã; e para fechar o calendário esportivo, as Olímpiadas vão reunir milhares de atletas do mundo inteiro, em 2016.

Entretanto, a euforia não deve ser empecilho para o aprendizado com os erros do passado. Não podemos nos permitir, mais uma vez, ficar com a história da conquista de uma terrível medalha, a da desigualdade, como aconteceu nos Jogos Pan/2007.

Pesquisamos até que ponto o evento alterou as condições sociais e o espaço urbano no Rio de Janeiro. A partir da análise dos gastos estatais e da identificação dos favorecidos e dos desfavorecidos pelas políticas públicas, a investigação revelou o aprofundamento da desigualdade social e urbana via transferência de recursos públicos para o domínio do capital privado.

A concentração de investimentos na Barra da Tijuca, um bairro nobre da Zona Oeste, não foi justificada por argumentos técnicos e nem por uma escolha aleatória. De fato, a cidade segue a marcha histórica da valorização imobiliária, através das praias, na continuidade dicotômica núcleo/periferia, Zona Sul/Zona Norte, rico/pobre.

No Pan/2007 mais de 36% dos gastos foram destinados às instalações esportivas que pouco atenuaram o desequilíbrio social. Apenas 8,5% do total foram para obras de urbanização, muitas dessas associadas às instalações esportivas.

É preciso destacar ainda a inexistência de qualquer legado na mobilidade urbana. Os gastos com a organização do próprio evento atingiram quase 20% do total dos recursos públicos empreendidos. Não há benefício social visível nesses gastos, a não ser a subjetiva satisfação de assistir a um espetáculo em sua cidade.

No total da fatura, quase 80% das despesas estatais com o Pan/2007 serviram de subsídio para atividade econômica privada.

A atuação do Estado transferiu R$ 2,8 bilhões de recursos públicos para poucos. Enfim, a experiência do Pan/2007 é elucidativa. O megaevento sacrificou ações governamentais em nome de uma promessa de tornar a cidade competitiva.

Ou a sociedade revê esse modelo ou os megaeventos aprofundarão a desigualdade social. Os poderes Legislativo e Judiciário, assim como a mídia e a própria sociedade, precisam fiscalizar a organização desses eventos.

Em tempo: Eduardo Cunha, envolvido no escândalo de Furnas, cuidará das licitações da Copa e das Olímpiadas. Saiba mais.

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3 respostas a Sobre megaeventos: modelo retrógrado

  1. Pingback: Sobre a APO – Autoridade Pública Olímpica « Blog do Eliomar

  2. Saudações

    O que não consigo entender, é por que a população não percebe o que está acontecendo. Nem digo para que faça análises críticas sobre a desigualde social e tudo o mais. Mas, será que ninguém percebe que as coisas só têm piorado em matéria de transporte, segurança, habitação, educação e que não há precocupação com saneamento básico? Que os representantes do Poder Público não se mostram preocupados em melhorar o país para os que aqui vivem, mas apenas para ganharem mais dinheiro? Ninguém se lembra do Pan2007 e das mentiras contadas pelas autoridades? Cadê o VLT, o metrô da Barra e de São Gonçalo, a reforma da Avenida Brasil e tantas coisas mais?
    A falta de compromisso com o lugar onde vive e consigo mesmo é algo que me assusta no brasileiro.
    Não acredito que as pessoas não vejam. Elas simplesmente não querem se comprometer. A omissão é mais segura.
    Privilegia-se o consumo pelo consumo e as pessoas se deixam enredar por essa ideia, perdendo o senso crítico com coisas graves que estão acontecendo debaixo do nariz.
    Assustador!

    Um abraço.

    • eliomar coelho disse:

      Cara Patrícia,

      Dizem que o brasileiro não tem memória. Queremos contribuir, de alguma forma, para refrescar a memória da população e mostrar as incoerências, decisões e condutas inadequadas na condução da organização dos megaeventos. E brigamos para que Copa e Olímpidas se convertam em vantagens reais, avanços que vão beneficiar os moradores do Rio.

      Obrigado pelo comentário
      Abs,
      Eliomar

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