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Tributo: Uma história do Leandro Konder, por Cid Benjamin

“Há uns dez ou 12 anos, descobri que o Leandro costumava assistir a lutas de MMA ou UFC – nem me lembro como eram chamadas na época. Até pagava o pay-per-view para vê-las. Como às vezes eu também assistia, passamos a ver juntos.

Além do programa em si, me encantava, claro, ter mais um pretexto para conviver com aquela figura tão querida.

Leandro gostava de assistir às lutas comigo, porque, além da amizade que nos unia, como sou faixa preta de judô fazia “comentários técnicos” que ele apreciava. Enquanto isso, Cristina, sua mulher, e Ana, minha companheira na época, providenciavam a cerveja e os tira-gostos, meio sem entender o que tanto nos interessava naquela selvageria.

Dizíamos, brincando: “Isso deveria ser proibido. Mas enquanto não é, a gente vai assistindo”.

Foi nessa época que Leandro me chamou a atenção para o Minotauro, um lutador brasileiro radicado no Japão, onde era ídolo, reconhecido por todos nas ruas. Minotauro era, naquele momento, talvez o melhor do mundo. Leandro já era admirador dele e, logo, eu me tornei também fã daquele baiano de classe média, de mais de cem quilos distribuídos harmonicamente por um corpo quase magro de dois metros de altura, que se destacava por sua técnica apurada no chamado octógono.

Eis que li, em algum lugar, que Minotauro viria ao Brasil. Aqui, quase ninguém o conhecia. Na época eu trabalhava na editoria de política do “Jornal do Brasil”, e fiz uma sugestão de pauta que o pessoal da editoria de Esportes aceitou: levar Minotauro à casa do Leandro, promovendo um encontro dos dois. Algo como a Bela e a Fera.

Minotauro topou e, no dia aprazado, foi lá com um ou dois assessores.

Passamos uma tarde agradabilíssima. Para nossa surpresa, Minotauro mostrou-se uma pessoa articulada e bem informada. O papo fluiu como ninguém esperava – talvez nem de um lado, nem do outro. E Leandro, com sua inteligência, sua simpatia, seu charme, sua simplicidade e sua delicadeza, conquistou o lutador.

Um ou dois meses depois, Minotauro perdeu a luta seguinte, contra um russo, na qual era franco favorito. Tínhamos falado dessa luta e não passou pela nossa cabeça que Minotauro – na época no auge da forma – pudesse ser derrotado.

Mas eis que, dias depois, Leandro recebeu um email do manager de Minotauro, dizendo mais ou menos o seguinte: “Professor, o Minotauro ficou muito abatido com a derrota porque acha que decepcionou o senhor. Ele tem dito ‘eu não podia ter perdido essa luta, o professor é uma figura tão boa e eu o desapontei’. Por isso, lhe peço um favor, escreva um email diretamente para ele estimulando-o”.

Leandro, claro, escreveu o email, filosofando com profundidade, simplicidade e clareza (coisa que só os grandes conseguem fazer) sobre vitórias e derrotas na vida das pessoas. Certamente, com isso, contribuiu para elevar o moral do Minotauro naquele momento.

Minotauro esteve longe de se mostrar um troglodita na conversa que teve conosco. Muito pelo contrário. Mas só uma pessoa com a doçura do Leandro poderia tê-lo conquistado daquela forma.

Viva Leandro Konder!

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